Carta(s) Branca(s)


Os reizinhos

Não sei já quantas vezes li relatos da Batalha de Aljubarrota! Tudo neles é fascinante, desde e escolha que Nun' Álvares fez do local mais propício, até ao resultado da peleja - passando pela táctica utilizada e, até, pelo pormenor da curta duração do combate propriamente dito.

Mas, mais do que as descrições das «covas de lobo», dos fossos e dos ramos traiçoeiros; da eficiência dos archeiros ingleses, da valentia dos portugueses e da matança dos primeiros atacantes, há uma coisa que me faz pasmar:

É que, quer de um lado quer do outro, estavam, em pessoa, os principais interessados - os dois reis, por ironia do destino com o mesmo nome: João.

Ora, o facto de os próprios chefes-máximos estarem presentes nas batalhas pelas quais eram responsáveis era uma prática comum que, vinda dos primórdios da Humanidade, se manteve até muito recentemente.

Talvez por isso me façam rir os actuais anedóticos reis-do-mundo quando, exibindo um ar façanhudo, enviam para as guerras (que eles se encarregaram de criar ou apoiar) pobres soldados mais ou menos voluntários. E é um gozo vê-los, debitando palavras viris (mas BEM DE LONGE - pois, quando muito, vão despedir-se ao aeroporto ou receber os caixões dos menos afortunados), incitando os combatentes a dar a vida pela causa (mesmo injusta ou absurda), e exigindo ao resto do povo que seja solidário com «essa tropa toda».

Um velho barbeiro meu conhecido comentava há dias esse facto (enquanto brandia a navalha assustadoramente):

- É que actualmente, meu amigo, as guerras também têm os seus heróis-da-retaguarda...


Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 22 Novembro 2003

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