Carta(s) Branca(s)


A ração e a razão

Julgo que é a Stuart de Carvalhais que devemos a anedota da velhinha que dá uma miserável esmola a um pedinte:
- Agora não vá gastar esse dinheiro em vinho! - recomenda ela.
- Não, minha benfeitora - responde o mendigo - Com isto, até vou comprar champanhe!

Sobressai, nesta história, a crítica mordaz aos que dão uma ajuda mas não se coíbem de a acompanhar com conselhos tão irritantes quanto dispensáveis. E lembrei-me disso quando soube o que se passou com a que a Europa deu a Portugal no seguimento da catástrofe dos fogos deste Verão: lá mandaram o dinheirito que o nosso governo pediu (48,5 milhões de Euros), mas embrulhado em palavras-de-chacha semelhantes às da velhinha:
- Tomem lá... Mas, para a próxima, lembrem-se de que «mais vale prevenir do que remediar».

Claro que, por detrás dessa conversa-de-avozinha, vê-se que pensam (injustamente?) que em Portugal se economizou na prevenção, «poupando-se no farelo para se gastar na farinha» - como diz o povo.

Ora, dado que umas coisas puxam as outras, veio-me também à lembrança a história do homem que tinha um burro: Resolveu, a certa altura, começar a economizar - dando ao animal, cada dia, um pouco menos de ração do que no anterior. E uma bela manhã, para seu espanto, o bicho apareceu morto de fome.
- Já é azar! - queixava-se amargamente - Logo agora que ele ia começar a dar lucro é que foi desta para melhor!

A história já é velha - há quem a conte como sendo «a do burro do espanhol» e quem a refira como «a do burro do inglês».

Será que, lá por Bruxelas, a conhecem como a «do burro do português»?


Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 25 Outubro 2003

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