Carta(s) Branca(s)


É mesmo preciso?

Conheci em tempos um engenheiro que se caracterizava por uma atitude curiosa:

Quando fazia orçamentos (mesmo que fossem de muitas centenas de milhares de contos) arranjava sempre forma de que tivessem valores acabados em $50 - quando não mesmo em $10. Dizia o homem, com ar superior, que era para que se visse como os seus preços eram calculados com cuidado e precisão.

E lembro-me sempre dele quando, ao passar junto de um viaduto na Av. de Roma, em Lisboa, vejo um cartaz onde se fica a saber que a obra orçou em 2.260.106.247$00, o que equivale a indicar a distância dali até Praga com um rigor de milímetros.

Ora, parece que o ridículo da pseudo-precisão já alastrou ao valor do défice para 2003 pois, segundo me dizem (e garantem-me que se está a falar a sério), o malfadado valor (que, nem que seja à martelada, deverá ficar abaixo dos 3%) vai ser de... 2,944%!!!

Assim sendo, e como, pelos vistos, a ideia é desatar a meter casas decimais, proponho que se tenha em conta o seguinte:

No caso de as contas derraparam (e o «maldito» ameaçar ficar acima dos 3%) sugiro que a senhora Ministra das Finanças aponte para um famoso número que é muito pouco maior do que 3.

Refiro-me, evidentemente, a «pi» (3,14159...), que tem a grande vantagem de ter infinitas casas decimais - pelo que poderá indicar quantas quiser.

E julgo poder garantir que, se o fizer, ninguém na Europa a censurará porque, em relação ao ridículo 2,944 - além de ser praticamente a mesma coisa -, tem a grande vantagem de ter muito mais «pi-ada».


Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 27 Setembro 2003

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