Carta(s) Branca(s)


Chachadas taxadas

«Para se ver a RTP na TV e em casa é preciso ter TV, casa e electricidade. Logo, quem tem electricidade em casa... tem TV e vê a RTP».

Foi um raciocínio desta finura que levou um legislador a mandar incluir na conta da EDP a ex-defunta taxa de televisão: ele supôs (cientificamente, a-olho e em média) que uma família que gaste, pelo menos, 400 kWh por ano tem TV e vê a RTP.

Mas os legisladores existem para decidir sobre essas e outras matérias; e lembrei-me desta quando o «serviço público» me enfiou pela casa adentro uma tal D. Fátima (com o brinde de uma entrevista extra-longa), enquanto a SIC e a TVI, ajudando à festa num obsceno 3-em-1 (ou 1-em-3?), não me deixavam qualquer alternativa higiénica.

«E esta?!» - pensei eu - «Ela fugiu acusada de, entre outras traquinices, ter desviado dinheiro de todos nós - que é como quem diz: do meu bolso. E ainda por cima vou ter de pagar uma taxa para ouvir as suas patacoadas e as de outros-que-tais que decerto virão a seguir?!»

Mas, de súbito, lembrei-me que a solução era simples: poupar electricidade por forma a não exceder os 399 kWh!

De um salto, desliguei a TV, o disjuntor correspondente ao fogão (que ficou só com os bicos de gás) e ainda aqueles aparelhos que, em geral desnecessariamente, estão sempre ligados.

A lareira, a seu tempo, também dará descanso aos irradiadores. Quanto ao seu combustível, não há problema: mais um programa nauseante como o referido... e será o televisor. É taxativo!


Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 21 Junho 2003 e no "Correio da Manhã" de Moçambique no dia anterior

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