Carta(s) Branca(s)


Pre-sumida

Quando a comunicação social fala de alguma pessoa suspeita de ter praticado uma malfeitoria refere-a, quando muito, como «presumida culpada» - pois é também «presumida inocente» até prova em contrário.

Compreende-se, por outro lado, que amigos e admiradores do acusado o defendam se estão convencidos da sua inocência, mas já é mais difícil aceitar que o façam cegamente quando têm a convicção contrária:

Quem não ouviu já o vómito «Se roubou, fez muito bem!»?

A menos que seja dita por quem é capaz de fazer o mesmo (ou pior), essa frase é difícil de entender quando estão em causa dinheiros públicos, pois a pessoa que a profere acha muito bem que a roubem a ela mesma! Depreendo que, se lhe surripiarem a carteira, em vez de gritar «Agarra que é ladrão!» dará saltos de contente, mostrará o cordão e o relógio de ouro que ficaram por levar, e suplicará ao gatuno que volte atrás para os recolher!

Se assim for, já cá não está quem falou.

NOTA 1: Em relação à agressão de que foi vítima Francisco Assis, em Felgueiras, não consigo perceber a ineficácia da GNR. Mas o mal deve ser meu, pois também não percebo por que é que, de uma hora para a outra, mudei de opinião e passei a apoiar o envio para o Iraque de «alguns» elementos dessa corporação.

NOTA 2: Julgo poder garantir que a palavra «presumida» não vem de «Presidente Sumida».


Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 24 Maio 2003 e no "Correio da Manhã" de Moçambique no dia anterior

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