Carta(s) Branca(s)


Ladrões de Bagdad

Quando os palácios de Saddam foram pilhados houve quem comentasse, deliciado: «É o povo a recuperar o que o regime lhe roubou durante tantos anos!».

A seguir foram bancos, ministérios, esquadras e organismos públicos: «É o povo a vingar-se do antigo regime!».

Seguiram-se embaixadas, Comité Olímpico, hotéis, armazéns, lojas, casas particulares e hospitais; foram roubadas ambulâncias e até autocarros de dois andares; de caminho, foi incendiada a Biblioteca Nacional - e a inacção dos americanos (obrigados, pela Lei Internacional, a manter a ordem mas que diziam não estar ali para isso) tornou-se insuportável.

Foi com um travo amargo na garganta que vi o saque do Museu Nacional Iraquiano: 170000 peças pilhadas ou destruídas perante a total passividade dos libertadores!

Mas tem de se compreender a falta de militares em quantidade suficiente para impor a ordem: conforme aquele general magrinho nos foi explicando desde o primeiro dia da invasão, as tropas mantinham em segurança os inúmeros poços de petróleo - e há que reconhecer que a rapaziada não chega para tudo.

Além do mais, se alguém se queixasse a um americano que eu cá sei - alegando que as tais peças do Museu tinham 7000 anos - talvez ele respondesse, entre sarcástico e incrédulo:

- 7000 anos?! Que exagero! Estamos só em 2003!


Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 18 Abr. 2003 e no "Correio da Manhã" de Moçambique do mesmo dia

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