Carta(s) Branca(s)


Tempestade de areia

É dos livros que, quando alguém decide invadir um país, procura alianças - se possível com forças da oposição local. Mas a História também ensina que quase sempre o sentimento nacional se sobrepõe aos ódios domésticos:

Há 2500 anos os gregos interromperam as suas guerras e derrotaram o invasor persa; inúmeras vezes os portugueses esqueceram as suas tricas para correrem a pontapé espanhóis e franceses; soviéticos deixaram de lado o ódio ao ditador que os governava para expulsarem os exércitos de um cavalheiro que (suprema ironia) até tinha sido democraticamente eleito.

Os exemplos são inúmeros, pois «um homem em sua casa tem tanta força que mesmo depois de morto são precisos quatro para o tirarem dela».

Desconheço em quantos casos (e com que êxito) o invasor se apresentou como o libertador que vinha trazer a «felicidade à força» de que falava José Gomes Ferreira. Mas, quanto ao que se passa no Iraque, temos a sorte de poder recorrer às explicações de Donald Rumsfeld e de Durão Barroso que em tempos não se deram mal com Saddam quando tocou ao fornecimento de armas (cuja existência é o pretexto para a actual invasão).

Mas, se a ideia de «libertação» não for aceite pela opinião pública, as Forças-do-Bem vão ter de mudar o nome da iniciativa. Que tal, em vez de «Liberdade Iraquiana», «Operação Areia para os Olhos»?


Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 5 Abr. 2003 e no "Correio da Manhã" de Moçambique em 8 Abr. 2003

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