Carta(s) Branca(s)


O Francisquinho

Quando eu era garoto ia quase sempre, nas férias grandes, para uma pequena povoação onde tinha poucos amigos com quem brincar. Entre eles destacava-se um, o Francisco, que tinha a particularidade de não gostar de perder: quando se aproximava o fim de um jogo que não ia conseguir ganhar, dizia que tinha de se ir embora; ou, se fosse um jogo de mesa, atirava com ela ao ar e as tralhas ao chão.

Não era só comigo, é claro, fazia isso com todos. Mas, quando nós nos queixávamos desse procedimento aos seus pais, estes, longe de o censurarem, sorriam, embevecidos: «O Francisquinho é muito esperto!»

Lembrei-me disso a propósito de Bush:

Sabendo que a França vetaria uma resolução do Conselho de Segurança que lhe permitisse uma intervenção unilateral no Iraque, procurou o maior número de apoios possível por forma a que esse veto tivesse, ao menos, o "contrapeso de uma vitória moral". Mas, como nem isso conseguiu, dispensou o escrutínio e resolveu avançar apenas com os seus aliados e com a bênção de um bravo convertido à luta contra os ditadores do mundo - agora que Mao e Staline já não andam por aí.

A semelhança dessa atitude com as do Francisquinho explica o reacender de velhas memórias: fez-me recordar que o rapazito tinha uma alcunha que, na altura, me parecia muito injusta: «o Chico-Esperto».


Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 29 Mar. 2003
Uma versão preliminar foi também publicada no "Correio da Manhã", de Moçambique, em 24 de Março

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