11 % de boa-disposição
Quando, esta semana, voltei a encontrar o meu amigo Roberto, estranhei vê-lo tão bem-disposto (porque eu soubera, pela mulher, que estava com salários em atraso - e não eram poucos!).
- É que o meu patrão pagou-me uma parte do que me devia -. Foi a explicação que deu e que me pareceu plausível.
E completou:
- Um pouco mais de 10 %.
Só?! Então como é que podia estar tão feliz?!
- E ao menos pagou-te juros? - Perguntei.
Limitou-se a responder com uma sonora gargalhada.
- E achas que nos próximos meses te vai pagar, quer o resto dos ordenados atrasados, quer os de 2003? - Continuei a indagar.
- Não me palpita... - E sorria, feliz da vida!
Como eu cada vez percebia menos perguntei-lhe se, mesmo assim, ia continuar a trabalhar para o mesmo patrão.
- Evidentemente -. Foi a espantosa resposta.
A conversa, para mim, tornara-se incompreensível. Apercebendo-se disso, ele tirou de um bolso uma folha de jornal do início do ano e apontou-me uma determinada notícia: «O Estado cobrou, devido ao perdão fiscal, 1000 dos 9000 milhões de Euros que devia ter recebido».
Devolvi-lhe a folha. Voltou a dobrá-la, guardou-a cuidadosamente e comentou:
- Se o Governo deita foguetes por uma coisa destas, quem sou eu para não o fazer... quando estou exactamente nas mesmas circunstâncias?
Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 18 Jan. 2003
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