Carta(s) Branca(s)


A pasta

Nos anos 80, já o Homem tinha ido à Lua há muito tempo, e ainda nos serviços públicos portugueses o papel era rei. Assim, os processos judiciais mais antigos (e que já não cabiam nos arquivos) eram destruídos - e foi a propósito do drama da Casa Pia que o fiquei a saber.

De início, ao imaginar como isso seria feito, pensei que fosse pelo fogo - processo que, além de purificador, ajudaria a melhorar a factura energética do país. Mas, afinal, e talvez por não haver incineradoras para «resíduos perigosos», a solução era outra, aliás mais inteligente e com a vantagem de não libertar dioxinas: a «lixarada» era convertida em pasta de papel, sendo tudo acompanhado por representantes do Estado.

No entanto, ao pensar na incrível sequência de processos judiciais tão bizarramente destruídos (sabe-se lá em que tipo de papel os terão transformado!), acodem-me ao espírito termos como «abafados», «poderosos», «influentes», e «gente de massa». Também por causa disso me lembrei de que, quando se preparava o enchimento da Barragem de Alqueva, o transporte de muitos milhares de toneladas de lamas (resultantes da reciclagem de papel da fábrica de Mourão) criou graves problemas.

O certo é que, com tanta confusão, dou comigo a pensar em muitas coisas ao mesmo tempo: na pasta de papel, no papel da «pasta», na lama associada...


Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 14 Dez. 2002

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