Carta(s) Branca(s)


Fra(n)camente!

Todos os anos, por esta altura, encontro uma tal Miss Riitta, simpática velhinha finlandesa que faz um esforço comovedor para aprender a nossa língua, enfrentando com coragem os NH, LH, CH, RR, ÃOs e ÕEs.

Um belo dia, depois de se dar por esclarecida em relação a palavras e expressões como "guarda-sol" ("Guardar o Sol?!") ou "Água com gás, natural" ("Água com gás-natural?!"), pediu-me que a ajudasse a decifrar mistérios como o do "pão fresco que está quente" ou o da etiqueta de um tal "Fiambre da Perna Extra".

Mas o pior foi quando quis que lhe explicasse o significado da palavra "verdadeiramente" ("Se é verdadeira, como é que mente?!")! Lá respondi o melhor que soube e pude, e dei o assunto por encerrado.

Pouco depois voltei a encontrá-la, desta vez numa esplanada, de roda de um jornal português, já antigo. Lia atentamente a descrição dos incidentes na fronteira espanhola (quando a Guarda Civil impediu alguns portugueses de chegar a Sevilha), e usava um marcador fluorescente.

Ficou muito satisfeita ao ver-me de novo. É que ela já tinha sublinhado, para posterior esclarecimento, a parte onde se lia que o Governo espanhol lamentava o sucedido... "sinceramente".


Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 3 Ago. 2002

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