Carta(s) Branca(s)


Vendo bem...

Um dia destes voltei a encontrar o meu velho amigo Roberto. Ora, quando estávamos a passear e a pôr a má-língua em dia, vimos, ao fundo da rua, um enorme cartaz que anunciava a construção de mais 100 fogos - aliás outros tantos horrores, quase acabados. Por associação de ideias vieram à baila os fogos florestais e as anunciadas demolições de umas 1300 casas clandestinas. Ele comentou, céptico:

- Não há nada a fazer, homem. Daquilo é que a malta gosta. Quando a floresta tiver ardido toda, quando as praias estiverem cheias de sacos de plástico, quando o resto do país estiver atafulhado de carros e de trambolhos como aqueles... então, sim, o povo português atingiu o cume da felicidade!

Pareceu-me que talvez estivesse a ser injusto, pelo que me limitei a esboçar um sorriso amarelo. Pouco depois, quando nos encontrávamos mesmo ao pé da massa de betão que dera origem ao seu desabafo, parou e ficou a contemplar, com ar filosófico, o letreiro «VENDAS». Por fim comentou, antes de pontapear um pneu abandonado:

- Olha, é o que eu precisava! - E continuou a andar como se nada fosse.

Apesar de já conhecer o seu sentido de humor, ainda demorei a perceber: referia-se a «vendas»... para os olhos, claro!


Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 27 Jul. 2002

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