Carta(s) Branca(s)


É tra(d)ição!

Há dias, o Presidente da República, em Barrancos, deu claramente a entender (embora com uns anitos de atraso...) que não se oporia às touradas de morte; e, como «tradição» rima com «legislação de excepção», já estamos a ver o que vai acontecer no caso - agora tão falado - das lutas de cães e nos inúmeros outros que decerto vão surgir.

Mas, vendo bem, se já existe a piada das «regiões demarcadas» da «Tolerância 0», - onde a lei tem de ser cumprida! -, porque não há-de haver outras (com tolerâncias de 1 a 10, p. ex.), onde seja facultativa?

Poderia até haver um segundo Parlamento, ficando o actual a tratar das leis-para-cumprir e o novo daquelas em que a tradição tenha algum peso: a fraude fiscal, os cães que defecam nas ruas, o estacionamento selvagem, a venda de álcool nas discotecas, a construção clandestina, os arrumadores, a violência (doméstica e nas prisões), o trabalho infantil, a droga, os salários em atraso, as prescrições, o proxenetismo...

Mas o grande pecado de Jorge Sampaio foi ter levantado o problema em Junho e não em Agosto, mês este em que há falta de assunto e Barrancos é uma dádiva do Céu para jornalistas e comentadores. Pelo menos, tem sido essa... a tradição.


Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 29 Jun. 2002

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