O difícil défice
Há uma regra-de-ouro que qualquer gestor de "meia-tijela" conhece de ginjeira: perante um problema que não saiba (ou não queira) resolver, nomeia uma Comissão de Estudo.
A mesma pode ser Científica ou não, e pode ser muito ou pouco Independente; mas o importante é que tenha um suculento assunto para meditar e disponha de um prazo bem dilatado para o fazer.
Vem isto a propósito do mistério do valor do défice português, que ninguém sabe quanto é:
Muito acima dos 3% (segundo a propaganda eleitoral do PSD)? Muito abaixo disso (segundo o PS)? Ou o valor que vier a ser indicado pela Comissão nomeada para a investigação?
Entretanto, parece que alguém, lá de Bruxelas, já decidiu: é 2,60% e não se fala mais nisso. Como quem diz: «Tomem lá, deixem-se de conversas e tratem mas é de governar».
Eu até tinha pensado que, como o drama andava todo à volta do "problema dos 3%" (por causa do eventual corte de verbas comunitárias se esse valor fosse excedido), se devia meter na Comissão um senhor que está sempre a dar palpites sobre política e é dono de uma cadeia de hipermercados.
Ele talvez não perdesse muito tempo a pensar e propusesse um valor de 2,99...
Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 27 Abr. 2002
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