Carta(s) Branca(s)


Todos-os-Santos serão poucos

Quando, há dias, o país foi abalado por um sismo, perguntaram a um responsável dos bombeiros se estávamos preparados para um de grandes proporções. Felizmente, a resposta foi dada com um sorriso nos lábios, o que permitiu amaciar o seu teor: «Não, não estamos. Ficaríamos dependentes da ajuda internacional».

Claro que não podemos deixar de nos questionar: «E se o maremoto da Ásia tivesse sido cá, onde nem os parquímetros funcionam?». Se calhar, a resposta vai ser dada quando se comemorarem, precisamente, os 250 anos da catástrofe de 1755.

Estou a imaginar os encarregados dessas coisas, reunidos no Terreiro do Paço, com um olho na assistência e outro, de soslaio, no Tejo. Se, depois dos empolgantes discursos, algum cidadão lhes pedir contas do que têm feito, responder-lhe-ão que, para além de terem apelado à Senhora de Fátima, já nomearam uma comissão para estudar se se deve dizer «maremoto» ou «tsunami».

Resumindo: se um dia destes vier por aí uma onda gigante, o leitor fará o mesmo que toda essa gente tem feito por si: nada.


Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 8 Janeiro 2005


Todos-os-Santos serão poucos
(Versão inicial, que teve de ser simplificada)

Quando, há dias, o país foi abalado por um forte sismo, perguntaram a um responsável dos bombeiros de Lisboa se estávamos preparados para um terramoto de grandes proporções. Felizmente, a resposta foi dada com um sorriso nos lábios, o que permitiu amaciar o seu teor: «Não, não estamos. Ficaríamos dependentes da ajuda internacional».

Ora, o facto de o maremoto do passado dia 26 ter demorado duas horas a chegar à Índia (e umas quatro para atingir África) dá que pensar: apesar dos satélites, da internet, dos telemóveis, dos faxes, dos telefones, da rádio e da TV, não foi possível avisar ninguém - tendo morrido muitos milhares de pessoas que poderiam ter sido salvas. Foi, porventura, a mais grave e inimaginável manifestação de incompetência de que há memória por parte de governos e organizações responsáveis.

Claro que não podemos deixar de nos questionar: «E se tivesse sido em Portugal, país onde nem sequer os parquímetros funcionam?». Se calhar, a resposta vai ser dada quando se comemorarem, precisamente, os 250 anos da catástrofe do dia de Todos-os-Santos de 1755.

Estou a imaginar os encarregados dessas coisas (os da altura e os seus antecessores), reunidos num palanque no Terreiro do Paço, com um olho na assistência e outro, de soslaio, no Tejo. Se, depois dos empolgantes discursos, algum cidadão lhes pedir contas do que têm feito, responder-lhe-ão que, para além de terem apelado à Senhora de Fátima, já nomearam uma comissão para estudar se se deve dizer «maremoto» ou «tsunami».

Resumindo: se um dia destes vier por aí uma onda gigante, o leitor fará o mesmo que toda essa gente tem feito por si: nada.

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