Carta(s) Branca(s)


O carro alegórico

Há um par de anos, ao alugar um carro em regime de longa-duração, impingiram-me um de uma marca que eu não queria - mas era o único disponível. Por incrível que pareça, tinha peças de dois fabricantes diferentes mas, como era barato e se aguentava menos mal (só a direcção é que fugia um pouco para a direita), não me importei muito; e até já me tinha habituado a ele quando, ao fim de dois anos, mo pediram de volta (vim depois a saber que o haviam vendido para o estrangeiro) dando-me, em substituição, um outro - supostamente de qualidade igual, e com garantia.

O pior foi quando começaram os problemas: primeiro, com o tubo de escape; depois, com o radiador, os travões, a embraiagem... A direcção, então, era de se perder a cabeça: tão depressa fugia para um lado como para o outro, e não houve oficina que lhe valesse! Entretanto, e por mais que reclamasse, a empresa jurava invariavelmente que o carro era do melhor que havia; e, recusando-se sempre a devolver-me o dinheiro, lá o ia remendando com pouco mais do que fita-cola.

Desesperado, comecei então a enviar cópias das minhas queixas para o Instituto do Consumidor.

Ora aconteceu que, quando eu recolhia provas e mais provas em abono do que alegava, um alto quadro da firma, decidido a vingar-se do chefe, colocou um anúncio nos jornais onde, sem meias-palavras, o acusava de uma infinidade de irregularidades e até de ser pouco sério!

Pode não ter sido esse o motivo principal (mas apenas a gota-de-água) que fez com que eu vencesse a causa, mas o certo é que agora até dizem que posso pedir um carro da minha marca preferida. Bem... só espero é que não me queiram impingir um usado!


Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 4 Dezembro 2004

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