Carta(s) Branca(s)


A banalização do incrível

1 - No que toca à verdadeira charada que é a questão para o referendo europeu, de duas, uma: ou os seus criadores (deputados do PS, PPD/PSD e CDS/PP) têm em superlativa conta a literacia dos portugueses, ou habitam nalguma longínqua cintura de asteróides. Para esclarecer esse mistério, uma equipa de reportagem da TVI foi entrevistar alguns incautos cidadãos que reagiram esbugalhando os olhos - pensando, porventura, que aquilo era para os «Apanhados». A única excepção foi uma senhora que, depois de ouvir tudo atentamente, respondeu sem hesitar:

- Concordo!

- Mas percebeu a pergunta?! - questionou o repórter, perplexo.

- Não, mas eu digo sempre que concordo.

Talvez ela fosse uma profissional do sector de serviços a quem ensinaram que o cliente tem sempre razão. O certo é que me fez lembrar os que, em Barcelos, ovacionaram Marques Mendes com o mesmo entusiasmo com que aplaudiram os que defenderam exactamente o contrário.

2 - Há organizações que se queixam de aguardar, há meses, que o Governo se digne recebê-las. Este, no entanto, não regateou o precioso tempo de DOIS-MINISTROS-DOIS quando lhe bateram à porta uns cavalheiros do futebol para discutir golos, arbitragens e claques, assuntos que, pelos vistos, considera serem de transcendente importância para o País. Teria sido muito proveitoso se Bagão Félix tivesse estado presente, não para se inteirar da situação fiscal dos visitantes, mas para lançar uma nova fonte de receitas, o Imposto Sobre o Ridículo - começando logo por taxar os que estavam ali a jeito, aplicando o escalão máximo aos anfitriões.


Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 27 Novembro 2004

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