Carta(s) Branca(s)


Reflexões

EM TEMPOS que já lá vão, uns jornalistas atrevidos rapinaram o caixote-do-lixo de um presidente dos EUA. Descobriram, como se imagina, muitas e curiosas coisas, mas a revelação considerada mais escandalosa foi a de que o homem mais importante do Planeta não lia jornais - deitava-os fora, intactos, não querendo saber como ia o mundo nem o que pensavam de si!

Recentemente, Durão Barroso, na TV, proclamou «Não PERCO (1) tempo a ler jornais», informando assim o povo de que também fazia parte dessa tão selecta elite, onde já se havia destacado Cavaco Silva quando declarou que 95% do que a imprensa dizia era mentira (2).

NÃO SEI se foi Alberto João Jardim o precursor, no nosso país, da caricata moda de culpar os jornalistas por tudo o que corre mal; o certo é que, ultimamente, também aderiram a ela dois políticos que bem se andavam a esforçar para que os levássemos a sério: Nobre Guedes e Bagão Félix.

Que lógica tem o que essa gente proclama, se há profissionais e órgãos de informação de todas as tendências - que, portanto, nos dão de inúmeros ângulos a imagem do país e dos seus governantes?

Se estes sonham com o «Diz-me, espelho meu, quem é o maior?», talvez ainda possam obter uma aproximação ao «És tu!» se forem a tempo de adquirir os espelhos ampliadores da Feira Popular. Devem vir acompanhados pelo inesquecível disco de fanhosas gargalhadas, mas essas nem será preciso contraditar, pois - o que é melhor ainda! - pode-se-lhes tirar o pio. «Assim o pudéssemos fazer às do Zé Povinho!» - pensarão alguns...


(1) Ainda emendou para "GASTO"... mas já foi tarde;
(2) Consideraria as suas entrevistas nos 5%?


Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 20 Novembro 2004

Página Anterior
Topo da Página
Página Principal
Página Seguinte