Grande cilindrada
Em épocas de muito tráfego, ao ouvir as habituais entrevistas com os homens das Brigadas de Trânsito, fico sempre com a ideia de que as televisões podiam poupar muito dinheiro.
Faziam assim:
Juntavam em estúdio uma dúzia de agentes fotogénicos e bem-falantes, punham em fundo umas imagens de carros amolgados, e, com pouco trabalho, despachavam em meia hora entrevistas que seriam válidas por muitos anos e maus. E isso porque, infelizmente, o que há a dizer é quase sempre o mesmo - com variantes apenas de pormenor:
«Registaram-se mais acidentes, mais feridos e mais mortos do que em igual período do ano passado. O principal motivo foi o excesso de velocidade...»
Claro que seria interessante discorrer sobre a responsabilidade de quem permitiu que fossem - e continuem a ser - dadas cartas de condução a assassinos e suicidas, mas isso é assunto que não cabe aqui, além de que a culpa deve ser... da Sociedade.
O certo é que, para muitos "artistas do volante", qualquer coisa acima de 0 km/h é, de facto, "excesso de velocidade".
Recordo-me de uma pessoa amiga que um dia, em plena Baixa, chocou com um cilindro. Garantia, e falando muito a sério, que a culpa fora do outro...
Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 13 Abr. 2002
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