Carta(s) Branca(s)


O auto-contraditório

Entre as pessoas que escrevem para os jornais deve haver as que o podem fazer com calma, e outras que têm de trabalhar à pressa para as notícias de última-hora. Sempre pensei que estas deviam ser as que mais sofrem, mas se calhar nem sempre é assim.

Por exemplo: estas «Cartas», precisamente por serem escritas com alguma antecedência, podem revelar-se autênticos pesadelos quando abordam questões de política nacional, pois o que um governante afirma num dia tem grandes probabilidades de vir a ser desmentido por outro (ou por si mesmo...) mais cedo ou mais tarde. Nessa eventualidade, ou o texto ainda não seguiu - e vai para o lixo, ou já vai a caminho - e seja-o-que-Deus-quiser!

Recentemente, fartei-me de penar por causa do anúncio, feito pelo Secretário-de-Estado dos Transportes, de que os passes sociais poderiam passar a ser deduzidos no IRS. Sendo uma boa notícia, escrevi sobre ela, louvando-a entusiasticamente.

Ora, já o texto ia no ciberespaço, quando apareceram Bagão Félix (enfastiado) e António Mexia (sorridente) a desmentir o homem, recorrendo o segundo (por sinal Ministro dos Transportes) a um argumento esmagador para desautorizar o seu próprio «ajudante»:

- A maior parte das pessoas que utiliza o passe social nem sequer paga IRS. Portanto, vai abatê-lo a quê? (1)

Quando vejo o Governo exercer, de forma tão divertida, o seu direito-ao-contraditório, lembro-me sempre de uma «notícia» que li no suplemento humorístico d' «O Público» (2):

POR FALTA DE CLIENTES, TAXISTA DE AEROPORTO ALDRABOU-SE A SI MESMO.


(1) "Visão" de 2004-10-21
(2) "O Inimigo Público", 2004-03-19


Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 30 Outubro 2004

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