Carta(s) Branca(s)


Haja alegria!

PALPITA-ME que toda a gente simpatiza com Vítor Constâncio. Gosta-se do ar pachola, da voz pausada, dos óculos... - enfim, de tudo aquilo que lhe dá o ar de mocho-sábio saído de uma prancheta de Walt Disney. Assim, também eu, há tempos, dei por mim recostado no sofá, antegozando o prazer de escutar os seus conselhos sobre a crise.

Não defraudou: referiu a necessidade de contenção da despesa pública, a eventualidade da subida dos impostos... Mas, infelizmente, faltou a electricidade durante um segundo, pelo que perdi a parte em que - suponho... - ele falou do combate à evasão fiscal.

Bagão Félix também abordou essa pecha na sua «conversa em família» (eu já tinha adormecido, mas dizem que o fez) e, mais tarde, na entrevista que deu à RTP. O mal é que as declarações sobre esse assunto são sempre recheadas de expressões como «Havemos de tratar disso um dia destes...».

Entretanto, o Zé-Pagante lá vai constatando que quem rouba uma carteira vai parar à cadeia, enquanto quem rouba milhões aos contribuintes não vai. Por isso, quando ouve debitar piedosas intenções, apenas comenta «Pois...», como a prima do Solnado.

No entanto, e tendo em conta o aumento do custo-de-vida, o Zé deve ficar satisfeito quando, como ultimamente tem sucedido, o presenteiam com dúzias de fala-«baratos» e catadupas de conversa-«fiada»!

PS: Pela módica quantia de € 105 / mês (que é quanto pago pelo meu PPR), tive direito a ser classificado, por uns sábios, no grupo dos mais ricos de Portugal! Eles garantem, sem se rir, que não está em curso nenhum ataque à classe-média em geral - apenas à Média-Alta (a «MA»). Um gozo!


Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 9 Outubro 2004

Página Anterior
Topo da Página
Página Principal
Página Seguinte