Carta(s) Branca(s)


Naturalíssimo!

Diz-nos o senso-comum que, se de um determinado ponto e nas mesmas circunstâncias se deixar cair um corpo várias vezes, ele vai cair sempre no mesmo sítio.

E foi essa noção (de que «as mesmas causas provocam os mesmos efeitos») que levou, durante séculos, a pensar-se que era possível prever o futuro desde que se conhecessem as «condições iniciais».

No entanto, no início do século XX (com o aparecimento da Mecânica Quântica) ficou provado que a realidade não se comporta assim - há apenas uma certa «probabilidade» de que as coisas aconteçam de certa maneira.

De tal forma isso parece pouco convincente que o próprio Eistein nunca aceitou esse «indeterminismo» - dizia ele que «Deus não joga aos dados», mas estava errado; e é pena, pois se há pessoa que quase sempre teve razão foi o Grande Albert!

Mas possivelmente o azar dele foi ter morrido em 1955 pois, se hoje fosse vivo, ficaria convencido da veracidade da Mecânica Quântica. Bastar-lhe-ia apreciar o que sucede com o processo da Casa Pia, em que sucessivos juizes e tribunais se vão desautorizando uns aos outros - mostrando claramente que as mesmas causas, nas mesmas circunstâncias, podem gerar efeitos diametralmente opostos.

Felizmente, para que ninguém pensasse que «está tudo doido», um senhor muito entendido nessas coisas apareceu na televisão, na terça-feira passada, a explicar-nos que é tudo natural, pois «a Justiça é mesmo assim».

Foi nessa altura que me veio à cabeça a canção da Gabriela: «É tudo natural, etc. e tal...»; mas ligeiramente diferente: «É tudo natural, estamos em Portugal...».


Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 4 Setembro 2004

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