Carta(s) Branca(s)


Histórias-da-carochinha

As antigas histórias infantis costumavam incluir reis e rainhas, príncipes e princesas, bruxas e fadas - mas também lenhadores, soldados e estalajadeiros. Uma delas, que se contava aos miúdos que não queriam comer a sopa, rezava assim:

ERA UMA VEZ um pobre soldado que regressava da guerra. Sentindo-se rico com a moeda de ouro que acabara de receber como soldo, entrou numa hospedaria e mandou vir comida do melhor que houvesse. Então, o estalajadeiro, enquanto limpava as mãos ao avental, perguntou-lhe, sorridente:

- E que tal um belo faisão, hem?

- Venha lá essa maravilha! - respondeu o outro, todo contente.

- Pois é, mas não há. E que tal uma costeleta, hem?

- Venha lá essa maravilha! - respondeu o outro, todo contente.

- Pois é, mas não há. E que tal umas rodelinhas de cebola, hem?

- Venha lá essa maravilha! - respondeu o outro, todo contente.

E A HISTÓRIA prosseguia, com o estalajadeiro a propor comidas cada vez piores - até acabar por trazer uma côdea de pão duro, com água a acompanhar, para grande satisfação do soldado. O empresário tinha, de facto, a arte de ir adaptando gradualmente as expectativas do cliente às possibilidades do estabelecimento...

Lembrei-me desta história quando, há dias, Santana Lopes anunciou a intenção de deslocalizar alguns ministérios; de imediato, uma equipa de televisão foi até Santarém entrevistar uns cidadãos que estavam a jogar às cartas; e a cena foi mais ou menos assim:

- E que tal um ministério da Agricultura cá na terra, hem? - perguntou o jornalista.

- Venha lá essa maravilha! - respondeu o outro, todo contente.


Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 24 Julho 2004

Página Anterior
Topo da Página
Página Principal
Página Seguinte