Carta(s) Branca(s)


Merece... dores

Recentemente, Manuela Ferreira Leite, zangada, acusou um deputado de não merecer o dinheiro que ganhava. Embora eu não perceba tanta irritação (afinal 1/230 corresponde a uns meros 0,4%), trouxe-me à memória uma cena a que assisti há muitos anos, no tempo em que os ordenados eram pagos com «dinheiro vivo»:

Numa certa empresa, essa tarefa era confiada a uma senhora que, sendo muito antiga na casa e tendo, por isso, bastante confiança com os colegas, costumava anunciar assim a sua chegada aos gabinetes: - Cá venho eu dar a massa à malandragem que não merece o que ganha! - E sentava-se, pesadamente, junto da primeira secretária que encontrava.

Mas, como nem todos lhe achavam graça, um belo dia teve de ouvir:

- Ó minha senhora, por acaso o dinheiro é seu, para vir sempre com essa boca foleira? - Foi a risota geral, e a partir daí «meteu a viola no saco».

Mas até se compreende o tal comentário da senhora Ministra das Finanças se se pensar que já deve ser uma espécie de tique - tantas devem ser as vezes que o atira aos seus próximos! Estou a imaginá-la a perder a cabeça com os governantes que «não acertam uma», com os deputados que vão à bola em "trabalho político", e até, este ano, com Durão Barroso - que também desandou para Gelsenkirchen logo que pôde, "mandando às urtigas" a viagem oficial ao México!

Só espero que não tenha anatematizado os deputados que inviabilizaram o quorum na A.R. aquando da votação do Código do Trabalho, pois, como isso foi em 13 de Maio, o mais certo é que estivessem a rezar em Fátima - o que, tendo em conta o estado do País, foi certamente «trabalho político»...


Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 5 Junho 2004

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