Carta(s) Branca(s)


Deus lhe pague!

Aproxima-se o dia 30 de Abril, data em muitos médicos hospitalares ameaçam entrar em greve se não lhes forem pagas as horas extraordinárias que fizeram nos últimos anos; ora, como a resposta que têm recebido é que «o assunto está em estudo», presumo que podem esperar sentados.

Não há dúvida: de tal forma está arreigado entre nós o «Não pagamos!» que tão cedo não vai perder actualidade a anedota do professor que questiona: «A quem se deve o Pinhal de Leiria?» e que, como resposta, recebe outra pergunta: «Então isso ainda não está pago?!».

Quanto a mim, e como, desde que me conheço, sou vítima de «caros amigos» (mais «caros» do que «amigos»), tenho dedicado algum tempo a estudar a tropa-fandanga dos devedores impenitentes, cujos recursos são vastíssimos:

Começam, em geral, por se mostrar ofendidos por o credor parecer desconfiar da sua honestidade.

Depois, há os que querem que a situação seja bem estudada, os que mudam de conversa, os que juram que nunca deveram nada, os que dizem que já pagaram, os que garantem que o cheque vai a caminho, os que pedem que lhes relembrem qual o valor em causa, os que se propõem renegociar a dívida, os que se limitam a não abrir a boca, os que, a sangue-frio, desenganam a vítima, etc., etc.

Só o pessoal do SEF (que está nas mesmas condições dos referidos médicos) é que talvez tenha alguma sorte, dado que a sua ameaça de greve durante o «Euro 2004» põe em causa, a crer no devedor, «o prestígio do País».

Pelos vistos, a nossa auto-estima bem pode estar em alta: afinal, são inúmeros os portugueses adeptos da divisa «O DEVER ACIMA DE TUDO!».


Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 24 Abril 2004

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