Carta(s) Branca(s)


Lúcidos e trans-lúcidos

Se alguém, num restaurante, não vir nada ao seu gosto, será natural que se retire - sem que, por isso, a indústria de restauração fique desacreditada; e se alguém, numa eleição, não vir nada que lhe agrade, poderá pensar (mesmo em voz alta) «venha o Diabo e escolha» - sem que, por isso, a Democracia se esboroe.

Por estranho que pareça, uma questão semelhante pôs meio-mundo aos pinotes: a sugestão de Saramago - por sinal, mais velha do que a Sé - para que se vote em branco.

Ora, e como já foi dito, quando Marcelo Rebelo de Sousa garantiu que votará em branco, nas presidenciais, se Cavaco não se candidatar, não se ouviu nenhum alarido; e essa afirmação (vinda de alguém reconhecidamente lúcido e com um público e uma influência porventura superiores à do nosso Nobel) tinha mais o aspecto de um apelo do que de um exercício ficcional.

O certo é que, sempre atento e aproveitando a onda, o meu amigo Roberto montou uma banquinha na rua, onde pede aos passantes apoio para se candidatar à Presidência da República! Diz ele que espera ter muitos votos e, ao mesmo tempo que vai recolhendo assinaturas, distribui papelinhos com o apelo «VOTE EM BRANCO!»; e a quem o interpela («Como é que se compreende, então, que seja candidato?!») esclarece que "Branco" é o seu apelido paterno.

NOTA: Pouco antes da publicação do «Ensaio sobre a Lucidez», foi divulgado o resultado de uma sondagem segundo a qual a abstenção, nas eleições europeias, pode chegar aos 70%. Jorge Sampaio afirmou, na altura, que ficou «aterrado». Significa que «desceu à Terra»?


Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 10 Abril 2004

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