Carta(s) Branca(s)


«Nunca, nunca, nunca mais...»

Conheço empresas onde, ainda recentemente, o uso de computadores era contrariado, os modems proibidos, o e-mail inexistente, e a Internet assunto tabu. Mas, se em empresas privadas geridas por incompetentes, os danos provocados pelo vírus da inforfobia se restringem aos seus donos, o mesmo não acontece quando ele infecta o Estado:

Recentemente, a ADSE (Ministério das Finanças) enviou a beneficiários seus os respectivos cartões 14 ou 15 anos depois de terem falecido. A explicação foi que a base-de-dados estava desactualizada!

Todos sabemos que muitos organismos do Estado convivem mal com a informática, aspecto em que as Finanças parecem ser vedeta pelas piores razões. No entanto, o que aconteceu no passado dia 4, na Assembleia da República, até foi divertido:

Louçã pediu a Manuela Ferreira Leite que mandasse alguém buscar uma cópia do contrato celebrado com o Citigroup (a quem o Governo vendeu, a preços de «Loja-dos-300», as dívidas ao Fisco e à Segurança Social) - e ofereceu-se para ficar ali à espera. Mas em breve percebeu que o melhor era ir arejar, não porque faltassem carrinhos-de-mão, mas porque o documento só havia sido recebido há cerca de mês e meio e as cópias ainda estavam a ser tiradas!

Imaginaria ele que essas coisas pudessem existir em CD, por exemplo?

- O Sr. Deputado não vai conseguir atrapalhar-me NUNCA! NUNCA! NUNCA! - esclareceu a Sra. Ministra, visivelmente irritada.

A repetição do advérbio deve ter sido por influência da tal máquina de fotocópias que, pelos vistos, encravou.


Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 14 Fevereiro 2004

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