Carta(s) Branca(s)


Rigorosa... mente

Quando a Sra. Ministra das Finanças garantiu ao mundo que o défice para 2003 iria ser de 2,944, eu fui um dos que riu à gargalhada com o ridículo da exactidão; e já tinha esquecido a anedota não fosse recordar-ma o Sr. Alpendrino, o dono de um restaurante onde vou muitas vezes e pessoa para quem rigor e pontaria são parte importante da vida.

Eu explico:

Todos conhecem o jogo em que se atiram, contra um alvo, setinhas em forma de foguetão. É fascinante a perícia de alguns praticantes, tanto mais que têm de obter complexas sequências de pontos.

Ora, no estabelecimento do Sr. Alpendrino há um desses jogos, com o qual ele gasta as suas horas de lazer, apurando de tal forma o seu sentido de exactidão, pontaria e rigor que faria corar de inveja a nossa esforçada Ministra.

Aconteceu que, no início do ano, ele aumentou o preço das refeições em 10%! Confrontado com o desagradável facto, pedi-lhe que mo explicasse. Anuiu prontamente:

- Não se trata de 10% mas sim de 10,000% - começou ele, limpando as mãos ao sebento avental. E prosseguiu:

- Isso, no que respeita ao rigor. Quanto ao aumento propriamente dito, tem a ver com um ditame governamental, a «inflação prevista». Ora, as suas refeições compõem-se sempre de sopa, prato, pão, água e sobremesa, que aumentaram 2,000%. Como as parcelas são 5, a sua conta está certa, pelo menos até à terceira casa decimal.

Afastou-se; e ainda eu estava a rir-me da pilhéria quando uma velhinha, cliente habitual e que ouvira tudo, me bichanou:

- Faz você muito bem em nunca tocar na manteiga nem nas azeitonas!


Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 31 Janeiro 2004

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