Carta(s) Branca(s)


O pão nosso de cada dia

Mal tinha acabado de desabar sobre o Zé-Pagante mais um chorrilho de aumentos de preços, e já o governo anunciava, com toda a segurança, o valor da inflação para 2004! Que cabaz-de-compras terá usado para calcular essa sinistra grandeza (pouco antes de o Povo levar essa verdadeira «cabazada»)?

Se os preços da água, da electricidade, do pão, das rendas de casa, dos transportes, das portagens, etc. (bens essenciais que mexem com tudo) aumentaram da forma que se sabe, como é que o valor de 2% para 2004 pode ser credível e - para cúmulo - servir de base para aumentos salariais?! Para este efeito, não seria mais lógico considerar o valor de 2003 que, melhor ou pior, sempre pode ser conhecido?

Deu nas vistas, como uma obscenidade, a anunciada subida do preço do pão. Foi-nos explicado: Portugal importa quase toda a farinha que consome e, como o preço internacional este ano é alto, não havia nada a fazer - a menos que o país tivesse feito reservas de cereal. Ou seja: o que José, há milhares de anos, soube fazer no Egipto, não faz ninguém, hoje em dia, no nosso país!

Mas procedeu bem o nosso primeiro-ministro (por sinal também José, de sua graça) em mandar investigar o que mais parecia ser uma ameaça terrorista, pois, além do mais, deve saber que o assunto pode criar grandes sarilhos a quem governa - como poderia confirmar, do Além, Maria Antonieta, que se interrogava: «Se o povo se queixa de que não pode comer pão, por que não come brioche?».

É do conhecimento público que a senhora, de cabeça perdida, não terminou o seu mandato da forma mais feliz...


Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 10 Janeiro 2004

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