Carta(s) Branca(s)


F. º Lopes e F. º Lopes

Nos finais do Verão de 1384, o rei D. João de Castela, acossado pela peste, já desistira do cerco que tinha posto sobre Lisboa e, na cidade, um outro João - ainda apenas «Mestre e Defensor do Reino» - respirava de alívio!

Durante todo o tempo que o assédio durara, Nun' Álvares Pereira fizera a vida negra aos inimigos e, nesse fim de Setembro, lá estava ele no Montijo, à vista de Lisboa, querendo entrar na cidade; mas esta mantinha-se acossada pela frota estrangeira que ainda não zarpara.

Sempre «com o sangue na guelra» - tinha 24 anos... -, ele decidiu então atravessar o Tejo pela calada da noite, apimentando o seu acto com uma bravata: ao passar junto dos castelhanos mandou tocar as trombetas, e por tal forma lançou neles a confusão que nenhum lhe tolheu o passo!

Seis séculos depois, quiçá inspirado no relato desse episódio feito pelo seu homónimo Fernão, eis que Figueiredo Lopes faz saber ao mundo que vai até ao Iraque ao encontro da GNR! E - tal como da outra vez - o inimigo, paralisado, nem se moveu! (Possivelmente, a resistência iraquiana, conhecedora das trapalhadas em que andou metido - desde os fogos de Verão até às nomeações para a BT - não o levou a sério).

Mas voltando ao nosso herói: anos mais tarde, ele ameaçou o seu amigo e protector D. João I que se passaria para Castela se não recebesse certas recompensas a que se julgava com direito. Será nesse episódio que se inspiram os empresários portugueses que vendem as suas empresas aos espanhóis? Se sim, olhem que há uma ligeira diferença: Nun' Álvares ficou-se pelos ameaços!


Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 3 Janeiro 2004

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