Cartas para a Imprensa


Em maré de «economias»

Em tempos que já lá vão, o castelo-dos-mouros, em Sintra, correu o sério risco de ser vendido em leilão (como pedreira pronta-a-usar!) a um cavalheiro que queria fazer negócio com «aquela calhausada» toda. Felizmente, apareceu também a licitar «o imóvel» o príncipe consorte D. Fernando II a quem, nesse seguimento, devemos a recuperação do castelo, a construção romântica de toda a zona da Pena, e muito, muito mais, como se sabe.

Claro que, à primeira vista, dá que pensar como é que um estrangeiro se mostrou mais interessado em preservar um castelo conquistado por D. Afonso Henriques do que um português-de-gema - como parece que era o senhor que, pelos vistos, queria transformar um monumento nacional em paredes de casa e muros de quinta.

Mas o certo é que, nestes assuntos, não é a nacionalidade o que mais conta, mas sim outras realidades mais profundas, como a sensibilidade e a cultura de cada um.

Ah! E o dinheiro, claro! Já me estava a esquecer do dinheiro, o potente motor que, em breve, se encarregará de transformar num monte de entulho a casa onde viveu e morreu Almeida Garrett - para lucro de alguns, gozo de mais uns quantos e vergonha de todos nós, lisboetas e portugueses.

E o pior é que não há nada a fazer pois, segundo nos disseram, o edifício vai ser demolido porque a Câmara Municipal de Lisboa não tem dinheiro para «adquirir o imóvel, reabilitá-lo, musealizá-lo, geri-lo e mantê-lo» - para usar as palavras cruas e sem rodeios da Sra. D. Gabriela Seara, vereadora do Licenciamento Urbanístico.

Que diabo! A gente sabe que o proprietário é o actual ministro da Economia. Mas isso chega para explicar este «súbito acesso de economia» de toda esta ilustre (e decerto ilustrada) gente?!


Publicado no "Público-Local" em 30 Dezembro 2005 e no jornal "metro" em 4 Janeiro 2006

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