Cartas para a Imprensa


Agarra que é ladrão!

Há dias, assisti a uma cena muito interessante: um polícia-de-giro, respondendo a um apelo de «agarra que é ladrão», desatou a correr atrás de um jovem e fogoso carteirista. Apanhou-o, e, depois de o imobilizar rapidamente, levou-o preso para um carro-patrulha. Fez tudo sozinho, como se fosse a coisa mais natural do mundo!

Claro que a cena não se passou em Portugal: foi em Sevilha, numa das avenidas principais.

Fiquei perplexo, e na altura interroguei-me: quantos dos nossos agentes da autoridade seriam capazes de fazer o mesmo?

Claro que não será por falta de meios (o polícia espanhol apenas usou as pernas para correr e as mãos para agarrar o gatuno). Talvez falta de preparação? É bem provável que sim, juntamente com uma grande ausência de motivação pois, segundo me dizem elementos da polícia com quem tenho falado, os larápios são quase sempre soltos e ainda se vêm rir deles.

Mas, se é assim, haja quem faça com que deixe de o ser, pois é para isso que todos pagamos «aquilo que se sabe»... e não é pouco.

Entretanto, vêm-me à memória os tempos em que havia três esquadras da PSP mesmo ao pé da minha casa: não havia rádios, nem telemóveis nem carros-patrulha, nem motocicletas mas, em caso de urgência (que tanto podia ser um assalto como uma simples zaragata de rua), bastava um telefonema: ao fim de poucos minutos, um agente aparecia (em geral, sozinho e a pé) e tratava do assunto.

Como toda a gente sabe, há muito que deixou de ser assim. Os «entendidos nestas coisas» mandaram encerrar esquadras de bairro, abriram outras «super», e o resultado é que, actualmente, passam-se dias e dias que não vejo um único agente na minha rua - onde os roubos e os assaltos são frequentes.

Viemos agora a saber que vão fechar ainda mais esquadras e postos - da PSP e da GNR. Deve haver quem garanta que assim melhoramos. Seja. Mas podem explicar melhor essa ideia, que nós prometemos não interromper?


Publicado no "DN" em 24 Dezembro 2005, no "Público-Local" em 26 Dezembro 2005 e no jornal "metro" em 4 Janeiro 2006

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