Privilégios e demagogia
Há dias, num almoço em que eu estive que juntou várias pessoas de diferentes idades e profissões, a conversa recaiu no assunto das «regalias e privilégios»; todos os comensais achavam que, na sociedade portuguesa, a maior parte devia ser abolida.
Deixei-os falar e, por alturas da sobremesa, resolvi tirar o assunto a limpo, interpelando os presentes um-por-um.
Como já esperava, constatei que, de uma forma ou de outra, todos - mas TODOS! - beneficiavam de alguma forma de privilégio (ou até de vários), se comparados com a média dos portugueses:
Uns trabalhavam poucas horas, outros ganhavam muito, outros tinham um número de dias de férias exorbitante, outros reformavam-se muito cedo, outros ainda tinham serviços-de-saúde especiais, etc, etc.
Evidentemente, todos consideravam justíssima a sua situação - pensando o oposto da dos restantes!
Mas o cerne do problema é outro:
A ideia de agitar o assunto dos «privilégios injustificados» - atiçando «o povão» contra quem os tem - pode ser muito eficaz, mas está a ser omitido um aspecto importante:
É que eles não caíram do céu - houve alguém que os deu.
Seria, pois, MUITO interessante que, ao mesmo tempo que essas regalias são questionadas (e até se pode aceitar a justiça desse acto), ficássemos a saber quem foram os responsáveis por elas existirem.
Que ministro? De que governo? De que partido?
Palpita-me que as respostas a estas perguntas nos brindariam com saborosas surpresas…
Publicado no "DN" em 26 Novembro 2005 e no "metro" de 28 Novembro 2005
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