Cartas para a Imprensa


«Aceleras»: licença para a morte
(Título original: «"Tolerância" vem de "tolo"?»)

I

Há algum tempo, em pleno Alentejo, circulando numa estrada recta, larga e desimpedida, fui multado por ir a pouco mais de 90 km/h.

Era uma zona de "Tolerância Zero" e eu sabia disso.

Não posso portanto queixar-me (nem o faço) - até porque o que se seguiu teve a sua graça:

Um pouco mais à frente a polícia mandou-me parar e pude assistir à cana de um pobre guarda, encalorado, a passar uma "longa multa", toda manuscrita, em cima do volante da sua viatura, suspirando pelo dia (que, pelos vistos, ainda vai tardar) em que a informatização ali chegue!

II

No dia 11 de Setembro (*), uma reportagem de televisão mostrava uma série de jovens "a acelerar" nas noites e nas vias-rápidas de Lisboa e arredores.

Pudemos até ver um, a 268 km/h, na Ponte Vasco da Gama.

Ele sabia que era procedimento ilegal (a corrida e a tralha com que artilhou o carro para a "habilidade"), mas teve a gentileza de nos informar, com um sorriso maroto, que a polícia o "não chateava".

Na mesma reportagem, a própria Polícia confirmava-o, queixando-se de falta de meios.

Mas a cena mais saborosa foi quando a jornalista perguntou ingenuamente ao "acelera" se não achava que aquilo era perigoso para os outros condutores...

«Não, eles desviam-se para a gente passar» - Foi a resposta.

Quem sabe se, entre os que se afastam, não estará o tal esforçado guarda que encontrei a caminho do Alentejo?


(*) de 2000

Publicado no EXPRESSO - "Correio Azul" no dia 13 de Out. 2001

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