Os parquímetros e o défice
Chamam-lhe «o Zé do Boné» - por andar sempre com um, já se vê.
Tem uns vinte anitos, usa um brinco na orelha esquerda, e é encontrável com frequência nas Avenidas Novas, que percorre sempre muito depressa como se estivesse em risco de perder o comboio.
E trabalha que se farta!
A sua única ocupação é limpar o dinheiro dos parquímetros (o que faz num ápice e à luz do dia, perante a cobardia dos cidadãos e a impotência das autoridades, que reduz ao mais espantoso ridículo), tarefa para a qual usa como ferramenta apenas um pauzinho do tamanho de um palito.
Hoje fui dar com ele, abatido, a falar com um colega de profissão.
Encostados a um parquímetro liam, sem esconder o seu aborrecimento, a notícia do jornal «metro»:
«COFRES DOS EQUIPAMENTOS VÃO PASSAR A SER ESVAZIADOS MAIS VEZES POR DIA».
«Bolas!» - comentava o Zé - «Deve ser por causa do défice que agora ainda querem que aumentemos o ritmo de trabalho!»
Publicado no jornal "metro", com grande destaque, em 6 Junho 2005
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