Cartas para a Imprensa


Cada terra com seu uso...

Tenho na minha frente uma estranha fotografia (do arquivo Corbis) tirada em Bagdad; nela se pode ver um americano com um jovem iraquiano algemado: este acabava de ser preso pelo soldado estrangeiro por estar a fumar haxixe... na sua própria terra!

Claro que isto, que nos parece absurdo, vem a propósito do cineasta Ivo Ferreira que, como se sabe, arranjou sarilhos no Dubai essencialmente por dois motivos - um certo e outro menos certo:

O certo, é a incrível legistação do país - que brinda com 4 ou 5 anos de cadeia quem fume um charro - mesmo no recato da sua casa ou do hotel. O duvidoso, é que ele talvez não soubesse que era assim naquela terra.

Podemos imaginar, por absurdo, que um abastado afegão venha viver para o nosso país e queira fazer a sua plantação de papoilas no quintal e ter um rapazinho na cama. O mais certo será arranjar sarilhos, embora alegue em sua defesa que na terra dele não teria problemas; e todos nos lembramos daquele senhor (responsável por escolas de condução!) que reclamava para si o direito de andar a mais de 220 km/h em Portugal, alegando que na RFA isso era permitido.

Mas, já que falamos da Alemanha, aqui fica um relato de uma cena desagradável em que, lá, me vi envolvido:

No início dos anos 90, ia eu num carro conduzido por um colega habitualmente residente na África do Sul, quando fomos mandados parar pela polícia: íamos a 65 km/h num local em que a velocidade máxima permitida era de 50 km/h.

Nem soubemos de onde «eles» apareceram, mas tudo se teria resolvido com o pagamento (imediato, claro!) de 30 Marcos se o condutor tivesse consigo os documentos - o que não sucedia.

Fomos então ambos identificados via-rádio, e ele revistado e tratado como um verdadeiro suspeito. Depois, e enquanto eu ficava à espera no «local-do-crime», a polícia levou-o no carro-patrulha até à casa dele para verificar a existência dos documentos. E, no dia seguinte, o infeliz ainda teve de ir à esquadra prestar declarações.

Queixava-se ele, depois, para quem o queria ouvir, que na África do Sul não era assim - e os portugueses que o escutavam compartilhavam a sua tristeza exibindo o seu natural «porreirismo solidário».

Quanto aos alemães, só comentavam: «Coitado... Ainda não percebeu que não está na terra dele...»


Publicado (com destaque) no jornal "metro", em 12 Maio 2005, com exclusão da parte em itálico

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