Cartas para a Imprensa


tás tramado, pá!

- Ando aqui na estrada, pá. Pá, ainda tou aqui em regresso, mas isto tá um trânsito e um tempo horrível, pá.

Este é um extracto da conversa entre Ferro Rodrigues e António Costa que serviu para manter a prisão preventiva de Paulo Pedroso.

E não se sabe o que mais admirar: se o facto de um juiz usar uma conversa-de-chacha como esta ou se o facto de um possível futuro Primeiro Ministro falar ao telemóvel enquanto conduz. (Quanto a este aspecto, tendo ele sido apanhado recentemente a conduzir a 200 km/h - e sendo a lei quase igual para todos - deve estar inibido de conduzir. Por isso, talvez desta vez levasse motorista ou usasse um "kit" de mãos-livres; se assim foi, já cá não está quem falou).

Mas o que é verdadeiramente preocupante é ver que, estando o país a atravessar uma espantosa crise, o maior partido da oposição se tem mantido quase paralisado com o caso das escutas telefónicas, parecendo cego para tudo o resto - a inflação, o desemprego, a insatisfação dos militares, os fogos, o apoio governamental à invasão do Iraque, etc. etc.

Há dias, eu já tinha ficado confuso ao ver Ferro Rodrigues agitar um telemóvel e a bradar: «Uso sempre este! Não quero outro!»

«Ao que chegou a crise!» - matutei - «Querem ver que ele agora faz anúncios?! Será que o aparelho já vem com 100 Euros em chamadas?»

E continuou, explicando pela milésima vez que «querem decapitar o PS». Apenas um reparo: «querem», não; parece que já o decapitaram: pelo menos ele... mostra-se de «cabeça perdida».


Publicado no "DN" de 11 de Agosto de 2003 com o título "A crise das escutas telefónicas" (com os cortes indicados em itálico)

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