As banhocas de Arquimedes
Na página 34 da «SUPER» de Junho 2003 há duas referências a Arquimedes que às vezes se prestam a alguma confusão - porque ambas correspondem a cenas passadas durante a higiene do Grande Sábio, mas não necessariamente na mesma altura.
Comecemos por recordar que, quando se fala dele, vêm sempre à lembrança muitas coisas:
O Princípio da Impulsão (já lá vamos...); a descoberta da falsificação da coroa do rei (também já lá vamos...); a frase «Dêem-me um ponto de apoio que eu levantarei o Mundo!» (para realçar o facto de que roldanas e alavancas podem ser usadas para aumentar a força disponível); o parafuso com o seu nome (engenhoca para tirar água); as suas invenções para a defesa de Siracusa (quem não ouviu já falar dos lendários espelhos parabólicos?); a sua estúpida morte, nessa cidade, às mãos de um soldado romano, etc. etc.
Vejamos apenas os dois primeiros factos, ambos correspondentes a descobertas ocorridas durante o banho:
Um dia, ao entrar dentro de água, Arquimedes sentiu-se mais leve.
Possivelmente já notara isso muitas vezes, mas o seu golpe de génio, nesse dia, foi descobrir que a «redução aparente do seu peso» era devida a uma força vertical, dirigida de baixo para cima, e que tinha EXACTAMENTE O MESMO VALOR que o «peso da quantidade de água deslocada pelo seu corpo»!
Esse princípio, que muito justamente tem o seu nome, foi, aliás, estendido aos fluidos em geral.
A outra história é um pouco mais longa:
Hierão, rei de Siracusa, encomendou a um ourives uma coroa de ouro puro; mas, por qualquer razão, suspeitou que o homem a teria falsificado e encarregou Arquimedes de investigar.
Num desses dias, ao entrar dentro de uma banheira (supostamente cheia até cima), alguma água ter-se-ia entornado (correspondente ao volume da parte imersa do seu corpo) - e isso ter-lhe-ia dado a ideia de como medir o volume da coroa.
Ora, se o ourives tivesse substituído parte do ouro por prata (e sendo este metal menos denso do que aquele), o volume da coroa seria maior do que se fosse feita só de ouro.
Assim, e sabendo o peso (pesando) e o volume (pelo processo que o banho lhe sugerira), Arquimedes fez umas contas simples e descobriu a marosca.
Não sei qual das duas «banhocas» o fez saltar do banho e correr nu pelas ruas bradando o seu famoso «Eureka!» («Achei!»).
Mas de uma coisa tenho quase a certeza: Arquimedes não deve ser o patrono dos falsários!
Publicado na revista "SUPERinteressante" de Julho de 2003
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