Cartas para a Imprensa


As lágrimas

Já há muitos anos que não chorava - até porque «um homem não chora»! No entanto, as lágrimas voltaram a aparecer quando vi as imagens da criança iraquiana que perdeu o pai, a mãe, vários outros familiares e ainda os dois braços...

E já não sei se foi antes ou depois que também não me contive: quando apareceu a imagem insuportável da destruição do Museu de Bagdade.

Mas, se estou aqui a revelar sentimentos íntimos, é porque li um comentário num jornal em que o articulista dizia mais ou menos o seguinte:

«A esquerda chorou lágrimas-de-crocodilo pelo Museu de Bagdade, mas foi apenas por anti-americanismo que o fez!»

No entanto, e por estranho que pareça (e ainda eu estava de boca aberta pela bacorada que acabara de ler), desatei a rir! É que me veio à memória uma peripécia verdadeira:

Em tempos que já lá vão, um saudoso amigo (pessoa pouco dada a coisas culturais) foi, muito a contragosto, levado pela mulher numa excursão a Itália.

Era no pino do Verão, e eles nas ruínas de Pompeia, debaixo de um sol abrasador.

A certa altura, o pobre homem (já velhote, gordo, trôpego e suando em bica) não aguentou mais.

Sentou-se numa pedra e desabafou:

«E vem um gajo de tão longe para ver esta calhauzada!»


Publicado no "Correio da Manhã" de Moçambique em 9 de Maio de 2003 e no "Diário de Notícias" do mesmo dia com o título «Aquilo não era propriamente uma 'calhauzada'»

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