Acidentes?
Omitamos quem fez subir o limite de alcoolemia de 0,2 para 0,5 g/l e saudemos a preocupação do governo em reduzir a mortandade rodoviária para metade - mas vai demorar 7 ANOS a fazer isso porquê?!
Durante meses conduzi na RFA, em cujas auto-estradas não existe limite de velocidade; mas nas outras estradas há, e da única vez que excedi o valor permitido fui de imediato mandado parar, paguei 30 Marcos em dinheiro-vivo, e nem percebi de onde é que os guardas saíram! Vim depois a saber que o que me sucedera não fora uma questão de azar, pois é simplesmente o normal por aqueles lados.
Por cá, temos até sítios habituais (quem não ouviu já o aviso: «Cuidado, que a GNR costuma estar ali!») e a maioria dos carros que circulam não-identificados são iguais em marca, modelo e cor!
Enquanto em Macau, p. ex., as multas por pagar estavam à espera do infractor na Inspecção Periódica Obrigatória, as nossas atafulham os serviços até prescreverem.
De facto, muito mais importante do que subir o valor das multas (para valores eventualmente astronómicos) é acabar com o sentimento de impunidade, aumentando significativamente a probabilidade de se ser punido em caso de infracção.
E, já agora, proponho que se substitua a palavra «acidentes» por outras como «desastres», «crimes», «suicídios» ou «homicídios», pois a contribuição rodoviária para o povoamento das morgues e dos sucateiros tem pouco ou nada de acidental. No entanto, já que está tão arreigado no nosso léxico, continue-se a usar o termo, mas só para aquelas coisas que implicam apenas «aço» amolgado «e dentes» partidos...
Publicado em «Cartas» (em Destaque) no Diário de Notícias de 15 de Março de 2003.
O título foi alterado para: «Sete anos de azar».
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