Cartas para a Imprensa


O verdadeiro desastre

Tem sido muito comentado o facto de uma vítima de um desastre em Odemira ter demorado 7 horas para chegar a Lisboa, onde acabou por morrer. Como se sabe, esse trágico acontecimento veio a ser condimentado com uma declaração do Ministro da Saúde garantindo-nos que tudo se passou de forma «correcta» - não se justificando, portanto, qualquer inquérito para apurar responsabilidades.

Mas, pensando bem, nada disso é verdadeiramente de espantar. O que sucede é que o caso da Saúde, por afectar quase toda a gente, é aquele onde mais se nota a falta de sensibilidade do respectivo ministro - aspecto em que, por sinal, o nosso é imbatível. E o problema não é só de agora (nem só deste ministro, nem só do nosso país), pois os governantes, de um modo geral, vivem numa realidade à parte, isolados do mundo-real, e por isso alheios às dificuldades do cidadão-comum, que só conhecem de «ouvir dizer». Ou alguém acredita que eles saibam, verdadeiramente, o que é estar 6h numa bicha da Segurança Social, uma manhã num Centro de Saúde ou uma tarde nas Finanças? Alguém imagina que eles tenham a experiência REAL de ficar a secar numa maca, num corredor de um hospital, ou, sequer, a de saborear os apertos dos transportes públicos em hora de ponta?


Publicado no "Público-Local/Lisboa" em 19 Janeiro 2007 e no "Público" em 27 Janeiro 2007

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