Cartas para a Imprensa


«O Urso e a Volta-ao-Mundo»

Há algum tempo, Durão Barroso defendeu que a taxa limite de alcoolemia devia ser «0.5»; Paulo Portas, referindo-se ao orçamento para a Defesa, falou em «1.9»; e Manuela Ferreira Leite, a propósito do défice, apontou para «2.8».

Sempre achei preocupante que essas pessoas não soubessem que, em Portugal, os números decimais se escrevem com «vírgula» e não com «ponto». Mas, como adiante se verá, isso vem a propósito da declaração de Morais Sarmento acerca do programa «Acontece»: segundo ele, sairia mais barato pagar uma viagem à volta do Mundo aos espectadores do programa do que mantê-lo vivo.

Não percamos tempo a fazer comentários sobre a «falta-de-chá» que tais declarações denotam, nem sobre o nível cultural que revela quem assim se refere a um programa verdadeiramente de serviço público.

Houve quem se desse ao trabalho de contra-argumentar: apurou o número de espectadores do programa e o preço de uma volta-ao-mundo, e em seguida fez uma conta de multiplicar, confiando que os conhecimentos matemáticos do ministro andassem um pouco acima dos demonstrados pelos seus colegas acima citados.

Parece que não foi bem sucedido.

*

Mas o verdadeiro problema, quanto a mim, está na própria definição de «volta-ao-mundo».

É que alguém que faça uma viagem dessas deve atravessar os meridianos todos (e por duas vezes - excepto o de partida, que pode sê-lo só uma), de preferência à latitude do Equador, e percorrendo, pelo menos, os 40 076,5 km que ele tem de perímetro.

Ora, há quem pense que basta cruzar os meridianos independentemente da latitude a que o faça. Se tal fosse verdade, podia considerar-se que alguém dava a volta-ao-mundo (mesmo de trotineta ou de patins) contornando simplesmente um urso polar que estivesse a hibernar à latitude de 90º.

Deve ter sido para uma viagem dessas que o Sr. Ministro pediu orçamento e fez as contas subsequentes. Se assim foi, está tudo explicado, e com clareza «meridiana»!


Publicado em «Cartas» (em Destaque) no Diário de Notícias de 26 de Fevereiro de 2003.
As partes em itálico foram omitidas, e o título foi alterado para: «Acontece...»

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