Cartas para a Imprensa


Tolerância... Zé!

Se há coisa que me tem feito pensar é a expressão "tolerância zero" !

Tentando .arrumar ideias: em Portugal, agora e em determinadas zonas bem delimitadas e definidas, os automobilistas não podem fazer asneiras.

Será o mesmo que dizer que em todas as outras zonas do país... bem... mais ou menos... tal vez... conforme...

Tudo bem. Não há nada como a gente saber as regras e poder contar com os compinchas que avisam com os faróis quando vem a polícia, muito especialmente se se acabou de roubar um carro...

Mas, assim sendo, deverá ir-se até ao fim e estipular claramente quais as zonas que levam outras pontuações e indicá-las claramente nos mapas das estradas: teríamos, assím, zonas com tolerâncía 1; 2,87; -10; ¾, P; 53...

Mas sempre era melhor uma tolerância em "raiz quadrada":

Essa, sim, seria uma solução radical!

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De qualquer forma, vendo bem, é o próprio conceito de "acidente" (por definição algo de "imprevisível") que está em causa.

Ora vejamos:

Um dia destes anunciou-se uma chuva de meteoritos. Se um deles me tivesse caído na cabeça indo eu a guiar, não havia dúvida nenhuma: era um verdadeiro acidente. Mas haveria decerto um patusco que abrandaria só para ver a cena. Provocaria uma bicha de 10 km e 20 choques em cadeia...

Poderia falar-se, neste segundo caso, de "acidentes"?!

***

Se eu, em dia de tempestade, me meter à estrada sem tra vões e com pneus carecas e for parar à horta mais próxima... tive, de facto, um acidente?!

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Em tempos que já lá vão houve um instrutor e um examinador que me deram como "apto para conduzir " - mesmo um Ferrari, se o apanhasse à mão. Eu nunca .tinha guiado de noite, nem com chuva, nem com nevoeiro nem a mais de 40 à hora. Quando, no dia seguinte, fui parar à valeta, acham que tive um acidente?

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Esta va eu com estes pensamentos em voz alta quando um amigo meu (que sofre muito com as estatísticas que nos põem na cauda da Europa) me ouviu e exclamou: «Boa! Vendo a coisa por esse prisma... afinal não estamos tão mal nas estatísticas de acidentes!»

***

Há pouco tempo fui até Espanha de carro. Estava com algum receio, pois ia fazer uma viagem grande e não conhecia estradas nem hábitos de condução.

Procurei informar-me: «Tenha cuidado!» Rezava, com candura inesperada, o texto de um guia turístico. «Os espanhóis guiam muito mal!».

E foi assim que, durante uma semana com o coração nas mãos, corri o país de Norte a Sul. Mas, para minha máxima surpresa (acreditem ou não) ao fim de oito dias e 1500 km por montes, vales, aldeias e cidades, ainda não tinha visto um único acidente!

"Não pode ser !" - pensava eu de regresso a Portugal e à vista de Badajoz.

Pois foi nessa altura que se deu o que naquela altura parecia já impossível: um carro de rodas para o ar, acabadinho de capotar.

Parei e corri para ele. Esperava-me uma das maiores surpresas da minha vida.

Saindo de lá de dentro, um pouco tonto mas ileso, o meu vizinho e amigo Manuel de Sousa. que fora nesse dia a Badajoz comprar caramelos e encher o depósito!


Publicado no EXPRESSO - "Correio Azul" em 28 de Nov. 1998

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