Cartas para a Imprensa


Cândidos candidatos

Em tempos que já lá vão, um amigo meu, pouco antes de iniciar as entrevistas de candidatos a um lugar puramente técnico, recebeu, do Departamento de Pessoal, uma folha de papel onde constava uma série de «pormenores» a que deveria estar atento durante as conversas que ia ter.

O patrão pretendia saber, em relação aos candidatos, coisas como a etnia, o tamanho do respectivo cabelo (e eventuais «penteados esquisitos»), o género de roupa envergada, a eventual existência de tatuagens visíveis (e sua descrição, se possível), de «piercings», de brincos e - já agora... - se fumavam ou não.

Tudo informações a obter discretamente, é claro.

Vem isto a propósito, como já se percebeu, da algazarra que para aí vai por causa de umas empresas que, nos seus anúncios de oferta de emprego, acharam por bem escarrapachar que os fumadores estarão automaticamente excluídos; como é evidente, quem quer proceder a essa discriminação já o faz há muito tempo, só que de forma discreta, e só a manifesta ingenuidade de quem a publicitou é que deu origem às notícias. E essas empresas, por sinal, acabam por dar de si uma pobre imagem - não tanto pela discriminação propriamente dita, mas porque mostram ignorar que faz parte do bê-á-bá, mesmo de uma empresa-da-treta, que«há coisas que se fazem... mas não se dizem».

Entretanto, a Comissão Europeia já se manifestou contrária à atitude em causa; e talvez seja por isso que ainda há pouco vi, num jornal diário de grande tiragem, um anúncio de
«PRECISA-SE DE RAPAZ COM MOTO (M/F)» - «Mesmo Fumador», presume-se...


Publicado no "DN" em 11 Agosto 2006

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