Cartas para a Imprensa


A «estupidância»


Parece que uma mistura explosiva de estupidez com ignorância atacou pessoas que era suposto estarem imunes a ambas:

O que dizer da empresa de moda que arranjou sarilhos por ter enviado catálogos com «pernocas à mostra» para a Arábia Saudita?

E de Bush que, a seguir ao 11 de Setembro, se lembrou de falar em «cruzadas» a propósito do Afeganistão?

E de Berlusconni que, na mesma altura, anunciou ao mundo que a civilização cristã era superior à muçulmana?

E de quem se lembrou de organizar o concurso de Miss-Mundo 2002 na Nigéria - de que resultaram 220 mortos, 1200 hospitalizados, 12000 desalojados e uma condenação à morte?

Mas imbatível nesse aspecto foi o «responsável» de uma empresa portuguesa muito conhecida que, de visita a um país onde os fundamentalistas islâmicos estavam em maioria, levou como prendas (para oferecer aos representantes do seu cliente) garrafas de Vinho do Porto.

Mesmo tendo em conta que, como fez questão de explicar, «Vinho do Porto não é vinho» e que «o tinto até faz bem ao colesterol», a gaffe entrou para o anedotário negro das duas empresas.

O indivíduo teve sorte, pois não lhe cortaram o pescoço - apesar de tal ser frequente por aqueles lados. Além disso, quando Dezembro chegou, os seus superiores puderam minimizar os danos: enviaram, aos eventualmente ofendidos, cartões de Feliz Natal...

C. Medina Ribeiro

Publicado em «Cartas», no Diário de Notícias de 7 de Janeiro 2003.
(As partes em itálico foram omitidas, e o título foi alterado para:
«A 'estupidância' nos contactos com outros povos»)

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