Cartas para a Imprensa


Pequena polémica, no «DN», sobre o texto anterior


Comentário do Prof. Carlos Amaral Dias
«Diário de Notícias» de 8 de Setembro de 2002

ATRÁS DO ESPELHO
Estamos em casa

(...) Mas, convoca-se agora o Marquês de Sade como ideólogo dos touros de morte. "O espectáculo segundo o Marquês de Sade", eis o título de um artigo de Medina Ribeiro, publicado no Expresso de 31 de Agosto. Inquieto perante a minha ignorância, percorro a obra de Donatien de Sade, Justine ou les malheurs de la vertu, La Philosophie dans le boudoir, La Nouvelle Justine, Juliette e Aline et Valcour, e não encontro nada sobre as touradas. Solicito, pois, aos leitores desta crónica que me ajudem a perceber a relação entre o escritor e filósofo francês desaparecido em 1814 e Barrancos.


--ooOoo--


Resposta de CMR, publicada no «Diário de Notícias»
de 19 de Setembro de 2002

DEVER DE ESCLARECIMENTO

Caro Professor Carlos Amaral Dias,

Quando, no domingo passado, deparei com um comentário seu a uma parte de um artigo que escrevi para o «Expresso» de 31 p. p. («O espectáculo segundo o Marquês de Sade»), fiquei muito lisonjeado. No entanto, como o texto em causa não foi disponibilizado aos leitores no «DN», acho que devo começar por transcrever a parte que motivou as suas palavras:

(...) as dificuldades de entendimento crescem quando se nos deparam pessoas que sentem prazer, não na simples morte, mas no sofrimento do animal. E são ainda maiores quando se trata de classificar os que, na Europa e em pleno século XXI, se comprazem em prolongar esse sofrimento, encenando-o e transformando-o em espectáculo - com bancadas, bilhetes pagos e a bênção de políticos ao mais alto nível. Mas, felizmente, podemos recorrer à obra de um famoso marquês: não o de Pombal, mas o de Sade. (1)

Diz-nos, na sua crónica, que percorreu a obra do Marquês e não encontrou nada sobre touradas.
Refere os livros a que recorreu. São obras que fazem parte da cultura-geral, incluindo um outro, de que não fala, mas que é fundamental: «Les Cent Vingt Journées de Sodome» ou «L' École du Libertinage». (Escrevo em francês para que se veja - ou pense - que o li na língua original). Mas, mesmo neste, também é escusado procurar - apesar de ser enorme, também não traz nada sobre tauromaquia.
Tenho, neste ponto, de reconhecer que tem toda a razão.

Seguidamente, pede aos seus leitores que o ajudem a perceber a relação entre Barrancos e o Marquês, e é por isso que aqui estou, pronto a dar a ajuda que estiver ao meu alcance.

Bem sei que não foi o Marquês de Sade quem inventou o substantivo, mas acho que a sua questão se pode converter numa outra, mais geral: «Qual a relação entre as touradas de morte e o sadismo?». Se assim for, facilita-me a tarefa, pois apenas terei de o remeter para um dicionário. Pelo menos foi o que eu fiz, já prevendo que a questão se ia colocar, para o que usei os que tinha mais à mão: o «Dicionário Universal da Língua Portuguesa», da Texto Editora e o «Dicionário Prático Ilustrado» da Lello & Irmão.

Dizem, essencialmente, o mesmo:

» SADISMO: Perversão daqueles que sentem prazer sexual praticando violências ou sevícias em pessoa de qualquer sexo, animais ou objectos;
Por extensão: perversão na qual um indivíduo sente satisfação com o sofrimento de outrem.

» (...) Crueldade.

Bem sei que é polémico afirmar-se que «as touradas de morte são um espectáculo de sadismo», mas estou convencido de que as pessoas que vibram com elas sentem, de facto, um vivo prazer (sexual ou não) com o sofrimento dos animais.
É apenas uma convicção, claro, mas é por a ter que me parece ser aplicável o substantivo «sadismo» - pelo menos «por extensão», ou seja, com o significado que as pessoas, hoje em dia, comummente lhe atribuem.

O que acima digo são banalidades que não são novidade para ninguém - muito menos para si.
Resta-me, portanto, pensar que, regressado de férias, foi vítima do mesmo drama que já atormentou Eça:

Ele tinha de escrever qualquer coisa e não lhe vinha a inspiração. (E o rapaz da tipografia, com as suas insuportáveis botas rangedoras, lá fora, à espera, à espera...)
Por fim, resolveu o problema de uma penada: desancou o Bey de Tunis, mesmo sem saber, sequer, se ele existia! (2)

Com toda a estima
do
Carlos Medina Ribeiro
Eng.º Electrotécnico

(1) Texto integral em: www.janelanaweb.com/humormedina/cartas15.html
(2) «Notas Contemporâneas» - carta a Pinheiro Chagas


--ooOoo--


Resposta do Prof. Carlos Amaral Dias
(em nota ao texto acima publicado)

Em primeiro lugar, muito obrigado pela sua resposta, que tem desde logo um duplo mérito: é elegante e assumida como sua. O que não é dispiciendo, pois que sobre a mesma crónica de 8 de Setembro de 2002 outros, supostamente visados, responderam, mas sem o seu humor e lhaneza (veja por curiosidade o Público de 16 do corrente mês). Mas que a tibieza de uns não sirva senão para enfatizar o mérito de outros. Sobre a sua resposta:

1- Fico satisfeito que reconheça que «tenho toda a razão», no que se reporta ao Marquês de Sade, tanto mais quanto lamento que na «cultura geral», o seu nome apenas se tenha «imortalizado» na adjectivação «sádica». Reabilitar a sua obra é essencial.

2- Fico também satisfeito quando afirma utilizar o conceito «sadismo» «por extensão». Mas convirá que o seu argumento pode ser aplicado ao potencial espectador de filmes de violência, terror, ficção científica, etc. Quanto ao problema do sadismo em si mesmo, ele existe como património universal de uma espécie condenada ao simbólico. Tal como aliás o Bei de Tunes sobre quem Oliveira Martins escreveu: «O bei de Tunes e o rei de Granada, aliados ao marroquino, queriam de novo atacar Ceuta». A «minha» Ceuta é a defesa do simbólico na cultura contemporânea, onde verifiquei, pela sua resposta, que não me encontro sozinho. De outra forma V. Também lá está.

Página Anterior
Topo da Página
Página Principal
Página Seguinte