Cartas para a Imprensa


O lobo bom

Um belo dia, o pai do João Pateta chamou-o junto do redil e, dando-lhe o seu cajado para a mão, disse-lhe: «Meu filho, já me sinto velho e cansado; tu já estás um homem, e por isso, a partir de hoje, és tu que levas as ovelhas a pastar. Desde que vá o Farrusco contigo, não há que ter medo dos lobos».

Ora, como o rapaz nunca vira nenhum lobo, não estranhou quando um deles lhe saiu ao caminho e, com um sorriso matreiro, lhe disse: «Ainda bem que te encontro, meu amigo! É que o Farrusco pediu-me para o substituir na guarda do rebanho. E podes estar descansado, que de ovelhas percebo eu...».

Claro que o resto da história é fácil de adivinhar, sendo a respectiva moral que «não se deve confiar, às cegas, em toda a gente».

E até aqui, tudo bem - trata-se apenas de um conto disparatado, como todos os do João Pateta. O pior... é o que eu vou ter de confessar!

É que essa história, que estava sepultada nas profundezas da minha memória, emergiu de súbito quando, há dias, ouvi Cavaco Silva a dizer a uns autarcas algarvios que contava com eles para proteger o Algarve do assédio dos construtores civis.


Publicado no jornal "metro" em 17 Julho 2006

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