Cartas para a Imprensa


Mau ambiente

Mal vai o país que, em pleno século XXI, ainda tem políticos seus a discutir, como se fazia há muitas décadas, se é preferível ter desenvolvimento económico ou defender o ambiente - questão tão disparatada como perguntar a alguém se prefere ter alimento para comer ou ar para respirar. Mas essa anacrónica discussão tem a vantagem de nos ajudar a entender atitudes como a do Dr. Fernando Ruas quando recomenda que os fiscais do Ministério do Ambiente sejam «corridos à pedrada», expressão que usou «medindo bem as palavras» (conforme disse) mas que (segundo depois esclareceu) deve ser entendida no «sentido figurado» - retórica finíssima e de uma subtileza só ao alcance de poucos.

O certo é que tudo isso me fez recordar uma curiosa cena que vivi em 2002, quando acompanhei um numeroso grupo de estrangeiros numa viagem do Porto ao Pinhão: estando eu atento ao que eles comentavam entre si, imagine-se o meu espanto quando reparei que, a partir de certa altura, as interjeições de «Very beautiful!» davam lugar a outras de grande estupefacção e desagrado. Mas a razão estava - literalmente - bem à vista: as maravilhas da paisagem duriense eram «temperadas» por inúmeros sucateiros de automóveis, frigoríficos e colchões na berma da estrada, frutos podres de uma mistura de interesses instalados, ignorância, falta de civismo e de sensibilidade, incompetência crassa e impunidade garantida.

Pelo menos no ano passado, a situação mantinha-se; e é à luz de vergonhas como essa que devem ser analisadas as patacoadas daquela e de outras «grandes figuras» da nossa terra («figurões» - em sentido figurado, claro!).


Publicado no "Público-Local" e no jornal "metro" (em versão reduzida) em 6 Julho 2006

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