Cartas para a Imprensa


O espectáculo segundo o Marquês de Sade
(Título original: «A barraca de Barrancos»)

Mais cedo ou mais tarde, um país sujeito a uma ditadura acabará por aceder à democracia, tal como outro que aplica a pena de morte a irá abolir, e outro ainda acabará com a prática da tortura. Poderão não ser de imediato alterações irreversíveis mas, a longo prazo, sê-lo-ão.

O ritmo da escrita ia-me levando a escrever algo semelhante sobre as touradas de morte! Esquecia-me de que estou em Portugal, onde um apurado «sentido de oportunidade» de quem agora manda levou o país a enveredar por bizarros caminhos.

Ora, já que não é possível (nem só por uns dias...) trocar Barrancos com Olivença, vai ser preciso dar tempo ao tempo. É que há uma evolução da Humanidade, uma espécie de «crescimento», que pode demorar bastante mais tempo do que se desejaria; tal como acontece com os garotos que, enquanto a sua sensibilidade não está apurada, praticam crueldades sobre animais indefesos - mas a quem a idade faz, depois, humanizar o comportamento.

Gostava muito de saber, em relação aos defensores das touradas de morte, qual será a sua «idade média»...

***

Mas por que motivo é que o problema de Barrancos só apareceu recentemente quando, afinal, já existia até no tempo de Salazar? E, sendo o ditador tão «adepto da legalidade», como é que nunca se preocupou (que eu saiba) com o facto de ela não ser respeitada? Talvez porque nada melhor do que alentejanos entretidos com tradições tauromáquicas para dar descanso às outras tradições, as da GNR e da PIDE...

Assim, quando, há poucos anos, alguém se lembrou de que as leis se fizeram para serem cumpridas, começámos a assistir a verdadeiros malabarismos, o mais divertido dos quais foi o de Fernando Gomes: uma vez paga uma multa, a infracção desaparece. Uma espécie de taxa: paga-se e... «'tá legal».

Vimos o PCP a defender uma «zona demarcada» com direito a uma «legislação de excepção» (para não perder votos no Alentejo?); o PSD e o CDS a barafustar contra a esperteza-saloia do ministro acima referido; e Jorge Coelho a dizer uma coisa qualquer.

Mas os tempos mudaram, e o PSD e o CDS, uma vez no poder, passaram a defender exactamente o oposto do que dantes advogavam, descobrindo, de um dia para o outro, as virtudes das «tradições ininterruptas» - que decerto foram invocadas pelos que, junto do Marquês de Pombal, defenderam as «tradições» do Santo Ofício.

Quanto ao facto de as opiniões mudarem ao sabor das conveniências... sempre teve o nome de «oportunismo» - e esperemos que ninguém se zangue por se «darem os nomes aos bois».

***

Mas há um outro aspecto interessante: o aparente paradoxo que consiste no facto de que, em geral, os que defendem os animais também os comem. Analisemo-lo, então:

A Natureza, ao fazer-nos omnívoros, fez questão de que nos alimentássemos de outros seres vivos.

Ora, juntando a isso a necessidade de autodefesa, o Homem teve de praticar, desde sempre, os actos de «matar para comer» e de «matar para não ser morto». Com o passar do tempo, a identificação do acto de matar com a sobrevivência levou a que ele lhe associasse um forte prazer, tornando-se a caça e a pesca actividades lúdicas - e passando ele a ser o único animal a matar mesmo sem necessidade.

Até aqui, ainda tudo se consegue compreender. Mas as dificuldades de entendimento crescem quando se nos deparam pessoas que sentem prazer, não na simples morte, mas no sofrimento do animal. E são ainda maiores quando se trata de classificar os que, na Europa e em pleno século XXI, se comprazem em prolongar esse sofrimento, encenando-o e transformando-o em espectáculo - com bancadas, bilhetes pagos e a bênção de políticos ao mais alto nível.

Mas, felizmente, podemos recorrer à obra de um famoso marquês: não o de Pombal, mas o de Sade.


Publicado no "Expresso" (1º Caderno) em 31 de Agosto 2002.

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