Cartas para a Imprensa


Carta Aberta a João Aguiar

Tradições

É sempre com grande prazer que leio o que João Aguiar escreve, quer se trate de livros, quer de artigos - nomeadamente os da «SUPERinteressante».

Mas, em relação ao artigo sobre touradas («Tradições», na «Super» de Agosto 2002), parece-me que não resistiu à tentação de referir o sofrimento da lagosta como passadiço para chegar ao (aparente) paradoxo dos que defendem os animais... mas os comem.

Entendamo-nos:

A Natureza fez-nos omnívoros, o que nos obriga a matar plantas e animais para sobreviver (a menos que consigamos contentar-nos com leite, água, mel e frutos o que, não sendo impossível, não é fácil...).

Assim, «matar para comer» (caça, pesca ou animais de criação) é algo que vem desde a noite dos tempos e implica o inevitável sofrimento (maior ou menor, conforme o processo de abate) dos animais.

Ora, a identificação da morte do animal com a satisfação da necessidade alimentar, levou a que o Homem associasse a essas actividades algum prazer, pelo que há quem pesque e cace mesmo «por desporto». Pode não se gostar do facto nem da expressão, mas é assim que as coisas se passam.

No entanto, num patamar mais difícil de analisar, encontram-se os que, além de sentir esse prazer em matar, sentem-no também ao inflingir ou assistir ao sofrimento do animal.

Num grau ainda mais difícil de definir, há os que prolongam esse sofrimento, o encenam e o transformam em espectáculo - com bancadas, bilhetes pagos e com a suprema «compreensão» de políticos...

Mas... que digo eu?! «Difícil de definir?!» E difícil porquê?!

Essa definição está feita há muitos anos, e já há dois séculos que lhe está associado o nome de um famoso marquês!

Não consta que ele tenha dado nome a muitas praças nem avenidas, mas nem por isso é menos conhecido.

Estamos a falar de Sade, evidentemente.


Publicado na revista "SUPERinteressante" de Setembro 2002.

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